terça-feira, 7 de abril de 2015

A Sombra da Sobra

Arrancaram-se os ossos
A carne
Os olhos
Todas as vísceras

Queimaram tudo
Enterraram as cinzas na lama

Invocaram-se magias
Destroçaram-lhe o espírito
Sem inferno, céu ou purgatório

O Amontoado de plasmas sem rumo
Acabou sendo lacrado

Queimaram-lhe a casa
Os escritos
Mataram seus entes

Matou-se quem fez tudo isso
E quem matou quem havia matado

Mas no fim, havia sobrado
Apesar de tudo,
Sobrou

E seguiu assombrando.

terça-feira, 24 de março de 2015

Poça de lama

Isso
Nunca começou
Nunca terminou

Nunca vai parar
Vai seguir sua trajetória

Não vai parar nunca
Quando chegar o momento
Vai voltar
Mais uma vez

E continuar
Sem parar

Sem algo que alcance
Sem algo à frente que barre

Sem parar

Vai continuar
Não de onde parou

Porque nunca parou
Nunca começou

Sempre existiu e
sempre vai existir

E vai continuar

sem parar

nada vai impedir
como nunca impediu

Porque nada veio antes para tanto
E nada vai existir depois

Sempre houve e sempre haverá

Antes de tudo e depois de nada

Nunca para

O remorso do almoço infinito

O que você faz aqui?

Aquele dia
Aquilo que houve
Foi coisa de momento

O que você quer?

Que eu peça perdão? Que eu me me responsabilize

Que eu visite o fruto do que fiz com você?

E você, veio fazer o que aqui? Deixei a porta trancada.

Aquela hora
Eu não tinha prestado atenção
Bebi demais
Nem sei seu nome
Aconteceu de repente e quando acabou
Eu fugi

Você queria que eu mandasse flores?

Você também? Por quê?
Eu não tive escolha, era uma ou outra

E você?
Eu estava só fazendo o que me pediram.

Por que estão aqui? O que vieram cobrar?

Eu estou almoçando
É um momento sagrado
Não convidei ninguém

Querem que eu me ajoelhe? Peça perdão?
Isso não vai mudar nada, não vai voltar o tempo

Querem que eu me arrependa. Não.
Fiz e não me arrependo
E ainda que assim fosse
Que diferença faria?

Eu não pedi para virem aqui
Eu não quero vocês aqui

Estou almoçando
Podem respeitar esse momento?

E voltar de onde vieram?
Ninguém precisa saber
E nem vai

Quem vai acreditar?

Não vão destruir minha vida
Só por que vocês não mais a têm

Seguirei jantando
Fiquem assistindo

Não sairei tão cedo daqui

A pinta

Não sei quem você é
De onde é
O que faz ou fez
Ou deixou de fazer

Não sei quem ama
Quem odeia

Não sei se me ama
Se me odeia
Se me ignora

Não sei se sabe da minha existência

Eu também não sei quase nada sobre você

Só estou vendo
a sua pinta
perto da sua boca
na sua bochecha

Uma pinta com campo gravitacional
De mil Júpiteres

Eu não consigo
Parar de olhar

A sua pinta

No seu rosto

Fogo é amor

O fogo preto
Saindo dos túmulos
Com fumaças azuladas

A fumaça branca de um fogo cinza

Fogo prateado
Fogo dourado
Fogo bronzeado
Fogo da brasa

Fogo vermelho
Jorrando como sangue
Explodindo

Expelido chorume amarelo
Com uma espessura verde

O fogo roxo
Com cheiro rosa
Que atrai e envenena

O fogo transparente
Matando lentamente
fazendo o corpo doente
mostrar o que sente

Fogo marrom
aterrando tudo
Com gosto de terra de cemitério

O fogo do esqueiro
Deixando o pulmão preto
Expelir a fumaça branca

O fogo corrói tudo
Derrete
Carboniza
Mata e reinventa
Transforma branco em preto
E preto em branco

Faz experiências bizarras
Dentro de nós

O fogo que não se apaga nunca
Que nunca morreu
Nem morrerá

Uma chama eterna
Um brilho sem fim
Destruindo tudo

Para que tudo se reinicie

A redenção é pelo fogo

Por isso vamos todos queimar
Vamos cair na lava e
Sermos fritos
Cozidos
Assados
Defumados
Ainda vivos

Vamos arder
Vamos à dor

Fogo é amor

sexta-feira, 20 de março de 2015

As saídas do cemitério

Do céu e para o inferno

De um calor corrosivo do centro da terra
Para o calor do sol

Da cegueira intensa da escuridão
Para a cegueira intensa da luz solar

Das torturas e ressentimentos
Para as inquisições morais

Do tridente, rabo e chifres
Para o cajado, a barba e a onipresença

O poder de vida e morte
O poder sobre tudo

Entre deuses e demônios

Fico apenas vagando num cemitério gelado, com seu frescor pálido
Com seus ventos fúnebres

A escolha é difícil no purgatório

Ninguém por aqui quer ser eternamente torturado no inferno
Nem no céu, no qual qualquer erro te leva direto para longe

Como não somos plenamente bons, nem conseguiremos, não temos céus
Como não somos plenamente maus, nem conseguiremos, não teremos inferno

Cabe a cova, nosso lugar
Desistimos de procurar um destino

E descansamos



quarta-feira, 18 de março de 2015

Dentro da terra

No meio do mangue
Dentro da terra
Escondido nas cavernas

Enraizado
Atolado
Empoeirado

Cavo cada vez mais
Passo pelo futuro e pelo passado
Ramifico o tempo
Com raízes que sugam lembranças
Lambanças

De tempos
             
             Achados
E perdidos
             E pedidos
E esquecidos

Num vendaval cronológico
Tudo vai embora

Mas sigo na oca
Criando mais raízes

                                                          Os ventos de Cronos
                       Seguirão sua trajetória
                                                              Até outras dimensões
                         Com as lembranças

Mas eu fico aqui
Segurado em minhas raízes
Segurando em galhos com minhas prezas

Depois do vendaval, hora de criar de novo
Uma nova casa
Com novas lembranças e expectativas
Novos passados e futuros

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O som do sino

O sino me dá sono, sua corda me acorda
O sono me dá sina, meu despertar me desespera
Meu desespero me dá sono, o sono me dá sonhos

Os sonhos me dão você, você me dá sina
A sina me faz cenas, as cenas me dão um sinal
O sinal é um som
O som do sino

Que me dá sono, mas está sendo balançado
Pela corda, que me acorda

É outro dia


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Continuando a regredir, voltando a continuar

Nos meus sonhos, pesadelos,
Nos delírios, no realismo

Quase morto, quase vivo
Totalmente morto ou totalmente vivo

Na divisa

Por todos esses caminhos se procura alguma razão por que permanecer vivo
Por que, afinal, seguir no plano material, e não optar pela desintegração
Por que virar um espírito depois da morte,
e não apenas deixar de existir completamente

São alternativas que imaginamos ter
Tanto nos sonhos como nos pesadelos
Tanto nos delírios como no realismo

Mas não temos
O fim será um só, sem chance de erro
Sem margem para dúvidas

Mas até lá, fica a questão
E antes dela, por que seguir
Continuar, quaisquer que sejam as alternativas que imaginamos possíveis

Posso estar errado quanto ao que decidi, decido e venha a decidir
Mas quem garante que eu esteja errado, no fim de tudo?

Quem nos julgará quando até mesmo esta espécie
deixar de existir?
E depois o planeta,
O sol, e todo o sistema solar?

Haverá juízes em determinada ocasião?
E advogados, haverá? Um de defesa, um promotor, testemunhas...

E a pena seria qual? De morte, de vida?
Ou algo tão terrível que fuja desse conceito
sobre o qual talvez sequer exista alguma palavra para descrevê-lo?

Por ora, só caminho
Aqui onde conheço bem

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Magnetização

Vejo você
Te ouço
Todos os meus sentidos sentem você

Uma atração impossível de parar
Tão forte quanto o magnetismo
Somos opostos, por isso não consigo parar de ser atraído

Eu me atraio
Me atraio
Me traio

Tropeço
Peço
Por mais movimentos

Seguirei sendo atraído por você
Como uma barra de cobre que não consegue se cobrir do seu alto grau de eletricidade

Que eu chegue até você
E seja feliz sendo eletrocutado
Todas as minhas veias sentindo
Sua voltagem vindo
Voltando
Indo

Seguindo sua trajetória indomável




Ostentação da inveja

Sim, senti orgulho da inveja que atraíres
Permanecei os privilegiados de causar um sentimento tão repugnante
Considerai mesmo todas críticas fruto dela
Agradecei o vosso voo, disparado pelo ódio e derrota dos que vos odeiam
Colecionai inimigos: são vossos troféus
Empalhados na vossa parede da vitória

Dai beijos em vossos próprios ombros
Não tentes defeito, nunca penseis isso
Qualquer crítica é fruto do vosso sucesso inquestionável
Vossa qualidade que causa tanto ódio, rancor, destruição dos inimigos e inveja
Senti orgulho disso

Vencedores
Quem são os outros para vos criticarem?
Para questionar vossa óbvia superioridade
Só podem ser perdedores

Perdedores
Que vivam para vos ver crescer
Que se mutilem por isso, cada gota de sangue deles e um litro do vosso sucesso
Que vos odeiem
Cada novo ódio que conquista é mais importante que qualquer novo amor

Vida longa à inveja e ao ódio
Que continuem trazendo só alegria a todos

Feliz ano novo.



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

No parque do Inferno

Duas crianças estavam se banhando num rio de sangue quente, numa vila do Inferno
Elas se esbaldavam

Na vila, havia todo tipo de gente ruim
E naquela semana havia um demônio para fazer inspeções
Para saber se as penas estavam sendo cumpridas

Longe dali, havia o Centro do Inferno
Onde as decisões são tomadas
Chegou aos ouvidos de Lúcifer uma denúncia preocupante:
O Inferno, onde todos deviam sofrer eternamente em torturas e pagar pelos seus crimes
Estava tendo seus princípios violados
Afinal, seria um paradoxo qualquer prazer dentro dali
Por isso mandou o tal demônio inspetor àquela pequena vila

Ao chegar lá e ver as crianças se divertindo no rio, nadando, brincando, logo chamou suas atenções

-Crianças malditas, por que estão felizes, isso é proibido aqui! Voltem a sentir nojo do sangue, das carnes podres, voltem a sentir dor de queimadura

E as crianças responderam:

- Nós viemos parar aqui porque não obedecemos essas mesmas regras quando vivos. Fomos mortos com base nas mesmas regras, que nos amaçavam ter como punição vir ao Inferno

- Eu sei, mas é para sofrer, parem de achar graça, de se divertir

- Mas por que somos obrigados a sofrer? Por acaso estamos fugindo das sessões de tortura? Estamos faltando às aulas de espancamento? Ferimos alguma regra do Inferno?

O demônio pensou, e, então, voltou

No seu caminho, havia muita gente que ele, particularmente, achava chata

Gente que pegava nele, dizendo que fez o que fez por acreditar que é certo, que estava arrependido, que não merecia ficar sofrendo no Inferno.

- Sai daqui!, gritava, chutava-os, espancava-os, com muita raiva

Quando voltou ao Palácio, o demônio inspetor disse ao seus superior:

- Majestade, não havia nenhuma lesão às regras do Inferno.

- Mas havia crianças felizes no rio de sangue

- Sim, mas elas estavam junto com outras pessoas, que me suplicavam para sair dali, diziam que não mereciam estar no Inferno, que não sabiam que erraram, ou que estavam arrependidas. Aquela chatice de sempre. Elas nem sabiam que, na prática, podem sair do rio, ou do inferno, mas continuam achando que não merecem sofrer, que nunca voltarão a fazer nada de errado. Por isso continuam lá. Estão presas.

- E as crianças?

- Os que as executou estão no rio também, lamentando. Elas não. Não estão arrependidas nem acham que não mereciam estar aqui. Devo puni-las?

- Não, mas acho que quem está as denunciando para nós é um dos executores. Parece que ele já está sendo muito punido. Além de estar no Inferno, acha que não merece estar aqui e tem inveja dos pecadores que mandou executar. Não há o que eu possa fazer para punir essa pessoa. Quando ela veio aqui pedir a inspeção, senti algo próximo do que os humanos chamam de nojo. Ela já está mal o suficiente.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O frio

Sou gelado
Aquela criatura repulsiva, que assusta a todos com seu ar frio
Quieto. Calado. Congelado.
Não teria sobrado um só sentimento?

Estaria eu já alcançado o zero absoluto?
As paredes de gelo em torno de mim, porém, não são inquebráveis.
Continuo sólido e frio à medida que fogem do gelo.

Mas posso derreter
Bastando um olhar caloroso