Duas crianças estavam se banhando num rio de sangue quente, numa vila do Inferno
Elas se esbaldavam
Na vila, havia todo tipo de gente ruim
E naquela semana havia um demônio para fazer inspeções
Para saber se as penas estavam sendo cumpridas
Longe dali, havia o Centro do Inferno
Onde as decisões são tomadas
Chegou aos ouvidos de Lúcifer uma denúncia preocupante:
O Inferno, onde todos deviam sofrer eternamente em torturas e pagar pelos seus crimes
Estava tendo seus princípios violados
Afinal, seria um paradoxo qualquer prazer dentro dali
Por isso mandou o tal demônio inspetor àquela pequena vila
Ao chegar lá e ver as crianças se divertindo no rio, nadando, brincando, logo chamou suas atenções
-Crianças malditas, por que estão felizes, isso é proibido aqui! Voltem a sentir nojo do sangue, das carnes podres, voltem a sentir dor de queimadura
E as crianças responderam:
- Nós viemos parar aqui porque não obedecemos essas mesmas regras quando vivos. Fomos mortos com base nas mesmas regras, que nos amaçavam ter como punição vir ao Inferno
- Eu sei, mas é para sofrer, parem de achar graça, de se divertir
- Mas por que somos obrigados a sofrer? Por acaso estamos fugindo das sessões de tortura? Estamos faltando às aulas de espancamento? Ferimos alguma regra do Inferno?
O demônio pensou, e, então, voltou
No seu caminho, havia muita gente que ele, particularmente, achava chata
Gente que pegava nele, dizendo que fez o que fez por acreditar que é certo, que estava arrependido, que não merecia ficar sofrendo no Inferno.
- Sai daqui!, gritava, chutava-os, espancava-os, com muita raiva
Quando voltou ao Palácio, o demônio inspetor disse ao seus superior:
- Majestade, não havia nenhuma lesão às regras do Inferno.
- Mas havia crianças felizes no rio de sangue
- Sim, mas elas estavam junto com outras pessoas, que me suplicavam para sair dali, diziam que não mereciam estar no Inferno, que não sabiam que erraram, ou que estavam arrependidas. Aquela chatice de sempre. Elas nem sabiam que, na prática, podem sair do rio, ou do inferno, mas continuam achando que não merecem sofrer, que nunca voltarão a fazer nada de errado. Por isso continuam lá. Estão presas.
- E as crianças?
- Os que as executou estão no rio também, lamentando. Elas não. Não estão arrependidas nem acham que não mereciam estar aqui. Devo puni-las?
- Não, mas acho que quem está as denunciando para nós é um dos executores. Parece que ele já está sendo muito punido. Além de estar no Inferno, acha que não merece estar aqui e tem inveja dos pecadores que mandou executar. Não há o que eu possa fazer para punir essa pessoa. Quando ela veio aqui pedir a inspeção, senti algo próximo do que os humanos chamam de nojo. Ela já está mal o suficiente.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
domingo, 16 de fevereiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Futuro velho
O futuro está velho
Está enferrujado
Corroído pelo tempo
Destruído pelo passado e presente
Um futuro gagá
Futuro seboso
Mofado
Está enferrujado
Corroído pelo tempo
Destruído pelo passado e presente
Um futuro gagá
Futuro seboso
Mofado
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
O frio
Sou gelado
Aquela criatura repulsiva, que assusta a todos com seu ar frio
Quieto. Calado. Congelado.
Não teria sobrado um só sentimento?
Estaria eu já alcançado o zero absoluto?
As paredes de gelo em torno de mim, porém, não são inquebráveis.
Continuo sólido e frio à medida que fogem do gelo.
Mas posso derreter
Bastando um olhar caloroso
Aquela criatura repulsiva, que assusta a todos com seu ar frio
Quieto. Calado. Congelado.
Não teria sobrado um só sentimento?
Estaria eu já alcançado o zero absoluto?
As paredes de gelo em torno de mim, porém, não são inquebráveis.
Continuo sólido e frio à medida que fogem do gelo.
Mas posso derreter
Bastando um olhar caloroso
terça-feira, 22 de outubro de 2013
O reino dos idiotas
Não conteste nada que lhe disserem, eles sempre estão certos
Na escola, saiba decorar cada palavra e repeti-la, e você passa. Se não for burro o suficiente pára fazer isso, que repete é você.
Depois, pense na sua carreira, algo que dê a você dinheiro para comprar coisas com as quais outras pessoas - cujas opiniões valem ouro - pensem que você é um deles, ou mais que uma categoria deles.
No emprego, repita tudo que foi te ensinado, faça exatamente como explicaram, não tente contestar as regras já existentes, não tente achar estranho você viver para trabalhar, ou a oposto, a ordem dos fatores não altera o resultado.
Pronto, você é feliz e está adaptado a essa sociedade, tem todos os seus preconceitos e os repete, tem todas as letras e sabe falar, tem todas as possibilidades e usa, sem criar outras.
Caso não seja assim, você é um louco. .
Na escola, saiba decorar cada palavra e repeti-la, e você passa. Se não for burro o suficiente pára fazer isso, que repete é você.
Depois, pense na sua carreira, algo que dê a você dinheiro para comprar coisas com as quais outras pessoas - cujas opiniões valem ouro - pensem que você é um deles, ou mais que uma categoria deles.
No emprego, repita tudo que foi te ensinado, faça exatamente como explicaram, não tente contestar as regras já existentes, não tente achar estranho você viver para trabalhar, ou a oposto, a ordem dos fatores não altera o resultado.
Pronto, você é feliz e está adaptado a essa sociedade, tem todos os seus preconceitos e os repete, tem todas as letras e sabe falar, tem todas as possibilidades e usa, sem criar outras.
Caso não seja assim, você é um louco. .
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Flexões
Eu finjo ser o que realmente sou
Doem as feridas no lugar onde está ferido
Eu roubo objetos que já me pertencem
Eu sigo minha sombra, flexiono meu reflexo
Eu não uso máscaras, mas sim sou a própria
Sou a inexistência fingindo existir
Vendo, do camarote do inferno ou do céu, um lugar
Em que a questão a ser discutida tem sido, durante milênios
Se a humanidade precisa ser salva
Ou se ela é a própria doença
E os reflexos diversos das sombras refletidas em minhas tantas máscaras
Fazem o mesmo tipo de pergunta
Eu estou no inferno
Ou o sou
Doem as feridas no lugar onde está ferido
Eu roubo objetos que já me pertencem
Eu sigo minha sombra, flexiono meu reflexo
Eu não uso máscaras, mas sim sou a própria
Sou a inexistência fingindo existir
Vendo, do camarote do inferno ou do céu, um lugar
Em que a questão a ser discutida tem sido, durante milênios
Se a humanidade precisa ser salva
Ou se ela é a própria doença
E os reflexos diversos das sombras refletidas em minhas tantas máscaras
Fazem o mesmo tipo de pergunta
Eu estou no inferno
Ou o sou
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Resigno
Resigne-se, disse-me eu a mim mesmo
E assim foi
Lembrei dos beijos e abraços que darei na mulher que amo
Lembrei dos desenhos e histórias que farei
Lembrei dos livros que lerei
Dos que escreverei
Das músicas que ouvirei
Das conversas que terei
Sigo resignado, porém
O tempo passa
E continuo lembrando do futuro
Resignado
Até me tornar o que sou agora
Um resigno
E assim foi
Lembrei dos beijos e abraços que darei na mulher que amo
Lembrei dos desenhos e histórias que farei
Lembrei dos livros que lerei
Dos que escreverei
Das músicas que ouvirei
Das conversas que terei
Sigo resignado, porém
O tempo passa
E continuo lembrando do futuro
Resignado
Até me tornar o que sou agora
Um resigno
Abrigo
O mundo
Talvez um dos seus lados
Ou um canto qualquer dele
Ou fora dele
Treme
De medo de tudo
Por isso
Qualquer canto
Do universo
Da vida
Do mundo
Ou fora deles
Podem servir de abrigo
Contra o mundo
Ou um canto qualquer dele
Ou fora dele
Talvez um dos seus lados
Ou um canto qualquer dele
Ou fora dele
Treme
De medo de tudo
Por isso
Qualquer canto
Do universo
Da vida
Do mundo
Ou fora deles
Podem servir de abrigo
Contra o mundo
Ou um canto qualquer dele
Ou fora dele
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
A parede
Uma parede de vidro
É o que nos separa
Não me contive ao tentar quebrá-la
Até descobrir que ela era de diamante
Como você é
Inquebrável
Eu, porém, vidro permaneço
Caio e me quebro
Diante de você
É o que nos separa
Não me contive ao tentar quebrá-la
Até descobrir que ela era de diamante
Como você é
Inquebrável
Eu, porém, vidro permaneço
Caio e me quebro
Diante de você
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
A estrela Dalva
A luz que emana da estrela
travessa paredes de chumbo
Não produz sombras
Mas sim, transforma-as em reflexos
Os reflexos se cruzam e formam uma tempestade
De luz
Alimentando as plantas
Criando vidas
A luz não cega
Mas sim, dá-nos uma visão mais clara
De quão simples a complexidade é
Não produz sombras
Mas sim, transforma-as em reflexos
Os reflexos se cruzam e formam uma tempestade
De luz
Alimentando as plantas
Criando vidas
A luz não cega
Mas sim, dá-nos uma visão mais clara
De quão simples a complexidade é
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Perfil segundo os cegos
Acomodado
Na zona de conforto
Preguiçoso
Vagabundo
Chato
Sombra
Faz papel de vítima
Só sabe incomodar os outros
Não tentou nada
Na zona de conforto
Preguiçoso
Vagabundo
Chato
Sombra
Faz papel de vítima
Só sabe incomodar os outros
Não tentou nada
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Ausência
A luz é a presença
A sombra, ausência
O som é a presença
O silêncio, ausência
A água é a presença
A seca, ausência
Os sonhos são a presença
O acordar, ausência
A partir daí
Tudo pode ser
Ausência
Sem sua presença
A sombra, ausência
O som é a presença
O silêncio, ausência
A água é a presença
A seca, ausência
Os sonhos são a presença
O acordar, ausência
A partir daí
Tudo pode ser
Ausência
Sem sua presença
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Desertor do deserto
Sou o desertor do deserto
Não desisto
Caminho até o oásis
O detalhe de ser uma miragem não me importa
Estou no oásis porque é assim que me sinto
Essa é a minha realidade, não conheço outras
Outros olhos me vêem nadando na areia, sob um sol de quarenta graus
Mas eu estou, de fato, nadando num lago
Pode ser que eu morra de sede
De tanto me sedar na ilusão
Mas a realidade é um deserto
A alma, a ilusão, é o que resta
Não desisto
Caminho até o oásis
O detalhe de ser uma miragem não me importa
Estou no oásis porque é assim que me sinto
Essa é a minha realidade, não conheço outras
Outros olhos me vêem nadando na areia, sob um sol de quarenta graus
Mas eu estou, de fato, nadando num lago
Pode ser que eu morra de sede
De tanto me sedar na ilusão
Mas a realidade é um deserto
A alma, a ilusão, é o que resta
sábado, 21 de abril de 2012
Não existe o nada
Sem luz, não há sombra
Sem sombra, não há luz
Não existe o nada
Tudo existe
De uma forma
Ou de outra
Sem sombra, não há luz
Não existe o nada
Tudo existe
De uma forma
Ou de outra
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